Quando a genética influencia a transparência do olhar: o que o DNA pode revelar sobre a Distrofia de Fuchs
- Rafaela Amaral

- 10 de fev.
- 3 min de leitura

Quando falamos em visão, é comum pensar apenas em grau, óculos ou no envelhecimento natural. No entanto, a ciência já demonstrou que a genética também desempenha um papel importante na saúde ocular, inclusive na integridade da córnea.
A Distrofia Endotelial de Fuchs (DEF) é um exemplo claro de como variações genéticas podem aumentar a vulnerabilidade de estruturas delicadas do olho, influenciando a transparência e a função visual ao longo do tempo.
O que é a Distrofia Endotelial de Fuchs?
A Distrofia Endotelial de Fuchs é uma doença progressiva da córnea que afeta o endotélio corneano, camada responsável por regular a entrada e saída de líquidos e manter a córnea transparente.
Com a perda gradual dessas células, podem surgir sintomas como:
visão embaçada, especialmente nas primeiras horas do dia
sensibilidade à luz
sensação de névoa ou halos ao redor de objetos
redução progressiva da qualidade visual
Em fases mais avançadas, o comprometimento da córnea pode levar à necessidade de tratamento cirúrgico, incluindo transplante endotelial.
Embora fatores como idade e sexo estejam associados ao risco, a predisposição genética é um componente fundamental da doença.
O papel da genética na Distrofia de Fuchs
Estudos de associação genômica ampla (GWAS) demonstraram que a Distrofia de Fuchs é uma condição multifatorial, ou seja, não depende de um único gene, mas da interação entre diversas variantes genéticas que afetam a função das células endoteliais da córnea ao longo da vida.
Entre os marcadores genéticos associados ao aumento do risco estão:
rs79742895 — gene KANK4
O gene KANK4 está relacionado à organização estrutural celular e à estabilidade do citoesqueleto. Variantes nessa região do DNA foram associadas a maior risco de disfunção do endotélio corneano, sugerindo impacto na integridade e na manutenção da camada endotelial.
rs1200114 — gene ATP1B1
O gene ATP1B1 codifica uma subunidade da bomba Na⁺/K⁺-ATPase, essencial para o equilíbrio iônico e o controle da hidratação da córnea. Alterações nesse sistema podem comprometer a capacidade do endotélio de manter a córnea transparente, um dos principais mecanismos envolvidos na Distrofia de Fuchs.
rs12223324 — gene SLC25A22
O gene SLC25A22 está envolvido no transporte mitocondrial de glutamato e no metabolismo energético celular. A associação desse marcador com a Distrofia de Fuchs reforça o papel do metabolismo mitocondrial e do estresse celular na degeneração progressiva das células endoteliais.
O que significa ter essas variantes genéticas?
A presença dessas variantes não representa um diagnóstico nem determina que a doença irá se manifestar. Elas indicam uma predisposição genética aumentada, que pode interagir com fatores ambientais, idade e outros aspectos individuais.
Esse tipo de informação contribui para:
melhor compreensão dos mecanismos biológicos da doença
identificação de indivíduos com maior risco
avanços no rastreamento precoce
desenvolvimento de estratégias de cuidado mais personalizadas
Na DNA Club, a genética é vista como uma ferramenta de antecipação e entendimento, e não como uma sentença definitiva.
Genética, visão e cuidado individualizado
A Distrofia Endotelial de Fuchs mostra como pequenas variações no DNA podem influenciar estruturas essenciais para a visão. Compreender essas predisposições genéticas permite uma abordagem mais integrada da saúde ocular, conectando genética, acompanhamento clínico e escolhas ao longo da vida.
Afinal, cuidar da visão também começa no DNA.
Referências
Gorman C. et al. Multi-ancestry genome-wide association study identifies novel pathways in Fuchs endothelial corneal dystrophy. Communications Biology, 2024.
Altamirano L. et al. Fuchs endothelial corneal dystrophy: genetics, mechanisms and emerging therapies. Current Opinion in Ophthalmology, 2024.
Stunf Pukl S. et al. Genetic and molecular advances in Fuchs endothelial corneal dystrophy. Genes, 2025.
Afshari N.A. et al. Genome-wide association study identifies novel loci associated with Fuchs endothelial corneal dystrophy. Nature Communications, 2017.

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